• Campo aberto

    Cannabis no campus Nossos repórteres percorreram o campus e não tiveram dificuldade em se deparar com o consumo, a olhos vistos, de maconha nos limites da Universidade. Confira a reportagem aqui.
  • Ecos de ’68

    Mesmo com cursos há meses sem representação e com o eterno embate filiados x não-filiados, movimento estudantil (re)acende a veia política de estudantes que nunca se imaginaram em posição de liderança. Aqui.
  • Emergência

    Hospital das Cl�nicas Referência em Cirurgia da Obesidade e Cardíaca, Transplantes e Gestação de Alto Risco, o Hospital das Clínicas da UFPE é vital para os estudantes da área de saúde, mas não atua no atendimento a alunos. Saiba o porquê.
  • “Xerocando”

    Xerox ou fotocópia?Ilegal ou legítimo? Um estudante fotocopia, em média, mil páginas de livros por cada semestre. Entenda como a marca Xerox virou verbo e substantivo na gramática estudantil da UFPE
  • Multimídia

    Acesse aqui os vídeos, fotos e áudios produzidos durante as reportagens
  • 12345

    Saiba com quantas horas de gravação, solas de sapato, chás de cadeira e bloquinhos de anotação se faz uma reportagem. A gente não gosta de matemática, mas contabilizou tudo!
  • Repórteres

    • André Simões
    • Bárbara Siebra
    • camilapimentel
    • Carol Vasconcelos
    • Cecília Santana
    • clarissagomes
    • descampado
    • Glaucylayde
    • Gustavo Maia
    • Guilherme Carréra
    • ineshebrard
    • katianectorres
    • larajornal
    • lucianamartins23
    • luisafsantos
    • mariedelbes
    • Mirella Izídio
    • Mirella Pontes
    • Rafaella Correia
    • Rafael Sotero
    • sofiacostarego
  • Falem mal, mas falem de nós

  • Passaram por aqui

    • 81,256 hits

Arquitetura para fortalecer identidades

Por Bárbara Siebra
barbara.siebraa@gmail.com

“Na prancheta, a vida floresce. Nela, realizamos viagens. Construímos triunfos. Harmonizamos agonias. Descobrimos abissais. Arquitetura é ciência quando usa a tecnologia para resolver seus problemas. E a utiliza com tanto rigor e inventiva que encanta. Aí, torna-se arte.” É dessa forma que o professor Ênio Eskinazi define arquitetura: expressão artística.

Ênio Eskinazi nasceu em 22 de abril de 1946, na cidade do Recife. Formou-se em Arquitetura pela Universidade Federal de Pernambuco em 1970.


Foto: Rafaella Correia

Hoje, além de arquiteto e professor de Arquitetura e Urbanismo na UFPE, é também diretor do Departamento de Planos e Projetos da Prefeitura da Universidade e autor do projeto do novo Restaurante Universitário que funcionará na Federal de Pernambuco.

Descampado: Havia Restaurante Universitário na época que o senhor estudou aqui na Federal?
Ênio Eskinazi: O Restaurante Universitário existia, mas existiam também restaurantes fragmentados nas unidades. Por exemplo, na Conde da Boa Vista havia um restaurante onde os estudantes de Arquitetura, Medicina, Direito, Engenharia iam para almoçar e jantar. Mas tinha também um na Cidade Universitária, para o pessoal de Química. Quando fecharam o acordo MEC-USAID e implantaram o sistema de crédito, transferiram todos os cursos e alunos para dentro do campus. Então, abriu o restaurante central, que era perto da Casa do Estudante. Uma localização muito própria para quem fazia Educação Física, mas imprópria para o campus como um todo, para quem estava do lado dos centros de Saúde e Educação, porque tinha que atravessar o campus todo.

D: Por que aquele RU fechou?
EE: O esquema de segurança daquela época, do governo militar, não admitia que existissem reuniões. E o Restaurante Universitário era um problema muito sério porque juntava todo mundo na hora do almoço e do jantar pra discutir. De vez em quando subia uma liderança na mesa, fazia seu discurso… Aí, chegava a repressão e todos saiam correndo. Mas não se pode dizer que o restaurante acabou só por causa disso, porque tinha que ter refeição. A gente convivia com eles e eles com a gente. O RU fechou porque é tudo resquício daquela época esquisita de repressão: a gente não tinha tranqüilidade nenhuma dentro da sala de aula porque tinha gente que era acusada de ser espiã, dedo-duro. Ninguém podia conversar a vontade, se juntar. Era aquele terror da mordaça. Não há administração que consiga se comportar democraticamente com aquela repressão, muitos conflitos eram gerados. E tinha outra coisa também: o segmento discente, o estudante, sempre reclamou a administração do restaurante. E tanto foi discutido que os alunos assumiram o restaurante. Mas a própria universidade tinha dificuldade de gerir o RU, imagine o corpo discente, que não tinha experiência alguma. Com as dificuldades, o restaurante acabou fechando. Isso há mais de dez anos.

D: O que existe hoje no prédio do antigo RU?
EE: Hoje em dia está ocupado pelo programa de incubadoras de universidade.

D: Qual a localização do novo Restaurante?
EE: O desenho do nosso campus universitário é documento do pensamento moderno: edifícios soltos em um grande jardim. Um dos únicos do Brasil. É uma coisa preciosa. E a gente tenta manter essa idéia do pensamento moderno, que é democrático. Há o eixo central, que nós chamamos “gregário”, onde congrega, concentra a população e onde ficam os serviços comuns à comunidade: a Biblioteca Central, a Concha Acústica, o Centro de Convenções. Só faltava o restaurante para pode juntar a consciência, a discussão, a convivência da entidade acadêmica como um todo. A gente localizou o RU nessa zona central.

D: Como é o projeto do RU?
EE: A cozinha é fechada, com uma porta de entrada e outra para servir o salão; ela é iluminada “zenitalmente”, por cima da coberta, para não precisar acender as luzes, só à noite. Como arquiteto, entendi que não deveria ser uma sala de refeição, mas local de encontro, onde a convivência de todos os segmentos – alunos, professores e funcionários – se efetiva. Aonde as pessoas vão para conversar e para fazer refeição: uma praça que, por acaso, é um terraço de refeições. Não é só uma sala fechada, tem também os pátios externos, compostos por três mangueiras belíssimas, que nunca sofreram nenhuma poda. Não podíamos mexer naquelas mangueiras, então, a arquitetura adaptou-se a elas. De modo geral, é um espaço fechado, por necessidade, e outro democrático, que é o terraço: transparente e democrático, onde todo mundo faz refeição e está participando. E é um edifício eco-eficiente, até onde conseguimos chegar. Procurou-se na arquitetura um projeto que fortaleça a identidade e a estima da comunidade acadêmica; um edifício universitário que seja inteligente e didático.

D: Em que sentido ele é um edifício didático?
EE: Ele não é mentiroso, porque a matemática não é mentirosa, a física não é mentirosa, a ciência não é mentirosa. Quando a pessoa olha e vivencia, vê que ali não há mentira, há verdade, a intenção é verdadeira. Ele é didático: ensina a verdade e joga as pessoas dentro das relações matemáticas. É uma obra                                                      Foto: Mirella Pontes
transparente; o usuário aprende com a planta, que tem discernimento pedagógico e didático, não só nas regras dimensionais, mas no próprio desenvolvimento da inteligência, da democracia. Esse espaço deve fazer isso com as pessoas: reafirmar a democracia, a transparência. É uma coisa etérea, não é físico. Você vê, sente e se emociona.

D: E até que ponto é um edifício eco-eficiente?
EE: O salão é todo iluminado com a luz do sol, há aproveitamento de resíduos, de água. A gente tentou usar energia solar, mas não gerava energia suficiente para movimentar os equipamentos. Por enquanto, vai funcionar a base de energia convencional. Os esgotamentos sanitários são separados: sanitários e vestiários têm um tratamento e a cozinha tem outro, não há mistura até o esgotamento final. Ela também não tem fogão, ou seja, não polui o ar. Possui filtros especiais para evitar a emissão de fuligem e fumaça para o meio ambiente.

D: Qual será o processo usado para armazenamento e produção de alimentos?
EE: O método se chama “cook-chill”, cozinha fria. Recebe-se o material semi-produzido; é feita uma triagem; estoca-se o material nas câmeras de congelamento; prepara; depois de preparado, vai para o forno central; depois de cozido, é pasteurizado nos congeladores e volta para as câmeras de congelado para, enfim, ser preparado e servido. Desse modo, nós temos o cardápio que quisermos. Nas cozinhas tradicionais, você passa com a bandeja colocando só arroz, feijão, bocado de salada, pedaço de carne e suco. O cook-chill é um método especial que já vem sendo adotado no Brasil, como nas grandes corporações, nas grandes montadoras, refinarias, forças armadas. Mas a UFPE será a primeira universidade federal brasileira a adotar o sistema.

D: Essa tecnologia é muito cara?
EE: Não. Até cinco anos atrás, todos os equipamentos eram importados, agora não, porque a indústria brasileira já produz e fornece os equipamentos. Isso diminui muito o custo. E a economia com mão-de-obra é muito grande, porque é muito pouca gente trabalhando, não tem aquela quantidade enorme de pessoas na cozinha, trabalhando toda hora. E o consumo de matéria-prima é bem menor. A perda também; quase nenhuma, pois é tudo pasteurizado e congelado. Na cozinha tradicional, se não comeu aquele panelão, tem que jogar fora. A implantação dessa cozinha é tão cara como a de qualquer outra, mas o custo de produção dessa é mais barato, com as vantagens de ser mais rápida, segura e não poluente.

D: Os estudantes da federal poderão estagiar no RU?
EE: Sim, na parte de administração, não na parte de produção de alimentos. A cozinha é hermeticamente fechada, higienizada, o funcionário só entra depois de passar por um processo de higienização. As pessoas não autorizadas não entram. Não é uma cozinha didática, não vai ensinar o aluno de Nutrição a cozinhar. É uma cozinha industrial. Os cursos de Hotelaria, Turismo, Nutrição, Administração e os demais ligados a essa área podem estagiar; dentro da cozinha há uma sala para professores e estagiários, que controlam e monitoram os funcionários por meio de equipamentos de som e imagem: todos trabalham com um equipamento de áudio. A equipe de nutricionistas, de administradores, não precisa ir lá, porque vê o que acontece pelas câmeras e fala diretamente com o trabalhador pelo microfone.

D: Se é uma cozinha industrial, o serviço será terceirizado?
EE: O serviço público da universidade não tem mais cozinheiro, taifeiro, não tem mais esses cargos. A UFPE está inapta para gerir, sozinha, o restaurante.

D: De acordo com a ASCOM, o projeto do RU foi aprovado e apresentado à comunidade acadêmica em 2005. Já se passaram três anos e o restaurante ainda não está funcionando. Qual o motivo da demora?
EE: Para o RU funcionar são três aspectos: primeiro, fazer o prédio, depois discutir a gestão e depois a compra e a montagem dos equipamentos. O prédio está quase pronto e a cozinha está pronta para receber os equipamentos. Foi feita uma comissão de gestão composta por quatro segmentos – alunos, professores, funcionários e técnicos – para discutir o funcionamento do restaurante: cardápio, preço, horário de funcionamento, quem paga, quem não paga. Então, a questão do restaurante foi levantada, depois foi preciso firmar a idéia, fazer um projeto físico, conseguir recursos, lançar para licitação… E a própria construção do prédio demora, deve levar dois ou três anos. Por mais que a gente corra, faça pressão, a administração pública tem uma certa imobilidade.

D: Em 2005, o Reitor Amaro Lins anunciou que dispunha de R$2,2 milhões liberados pelo MEC para a construção do restaurante. Qual o custo real da obra?
EE: O Restaurante pronto chegou R$3,7 milhões, mas isso considerando a praça ao redor, as áreas de convivência embaixo das mangueiras, as plataformas de acesso. Precisa de muito piso para fazer essa parte. O restaurante mesmo, só a cozinha e a sala de refeição, custa R$2,2 milhões. Essa diferença é contando com o que está ao redor dele, coisas que também podem ser feitas depois. Já estamos pensando em repor os recursos para completá-lo mais um pouco.

D: Qual o ritmo atual das obras?
EE: O restaurante está basicamente concluído. Está com o tapume para que não aconteça depredação. Quando houver gestão e os equipamentos chegarem, ele começa a funcionar. Até lá, nós vamos acertar detalhes, entrar com paisagismos, construir calçadas de acesso. Mas o restaurante está pronto, só ao funciona por falta de gestão e equipamentos.

D: O período de chuva intensa atrasou as construções?
EE: Não, porque é uma construção simples, não é complicada. É um volume fechado, a cozinha, que tem sua coberta, e o outro é um terraço. O desenho dele é muito especial.

D: Há alguma previsão para a inauguração do RU?
EE: É perigoso eu afirmar que vai ser em junho ou em julho porque eu                                     Vista do restaurante: a estrutura
estaria falando pelo reitor e não                               já está pronta / Foto: Mirella Pontes
tenho essa autoridade. O prédio terminou entre janeiro e fevereiro. A gestão deveria ser discutida em seis meses, mas estamos em maio e ainda não se definiu. Vai ser no segundo semestre. Só não sei quando (risos).

D: O que o senhor achou das manifestações estudantis ocorridas no ano passado (junho/2007) que reclamavam, entre outros aspectos, a aceleração na construção do RU?
EE: Eu achei correto. E nossa função acadêmica estar sempre discutindo, em ebulição, para poder fazer o barco andar pra frente. Se ficar todo mundo calado, não vai para lugar nenhum, fica aquela pasmaceira… Há que se discutir e firmar idéias para poder avaliar a validade ou não validade das propostas. Isso é saudável, é a democracia. Achei ótimo.

D: No dia 22 de março de 2007 houve uma reunião do Conselho Departamental do Centro de Educação na qual um dos participantes afirmou acreditar que, com a abertura do Restaurante Universitário, as cantinas do centro fecharão por conta de pouco movimento. Isso pode acontecer? Por quê?
EE: Isso é uma idéia quase lógica. Se não existe restaurante universitário, as pessoas comem nas cantinas dos centros. Na hora que abrir o Restaurante, as cantinas vão esvaziar um pouco. Uma cantina que serve lanche rápido sobrevive mais facilmente que os self-services. O RU não vai vender lanche. Se a gente está tendo aula e quer fazer um lanche, já tem a cantina no centro. As lanchonetes podem não sofrer, mas os restaurantes vão. Tem uma certa lógica.

D: Nessa mesma reunião, a professora Thereza Didien sugeriu juntar-se aos professores de Arquitetura do CAC para a realização de um projeto de melhoria da cantina do CE. Há esse projeto?
EE: A cozinha do Centro de Educação está funcionando precariamente, com poucas condições de saúde, problemas na produção de alimento. E tinha um problema funcional muito sério, porque havia alunos do Colégio de Aplicação passando para lá, gerando problemas de segurança. Então, as duas administrações pediram para mudar a forma, convergindo os dois espaços, servindo para alunos do CAp de um lado e do CE de outro, sem deixar passar. O que a gente fez está em licitação, para poder iniciar a reforma.

D: Dentro da UFPE, o senhor tem algum outro projeto arquitetônico?
EE: Tenho. O Bloco A da Prefeitura. Tenho também o projeto do campus de Caruaru e o de Vitória.

D: E na cidade do Recife?
EE: Um trabalho importante que eu tinha na cidade do Recife era a orla de Brasília Teimosa até Jaboatão, a orla todinha do Recife. Até o senhor prefeito, agora, desfazer todo. Aquele projeto era nosso. Foi um projeto muito interessante, porque foi um projeto democrático: para atuar em uma praia, tem que saber o que a população quer. Então teve pesquisa, discussão com a Aspam (Associação Pernambucana de Defesa do Meio Ambiente). A calçada só tinha três metros, não dava para as pessoas andarem com liberdade, fazer cooper, passear… Então, tínhamos que ampliar. Chegava a Aspam “Vai aterrar praia, vai tirar coqueiro…” Mas conseguimos fazer. Esse projeto é o mais importante. O resto é só edifício. Edifícios não são importantes.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: